Sonho de Dalí

O remate invadiu meus neurônios

salgou a pele

mastigou os estilhaços

deste corpo

tão

tão

tão

cansado.

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os homens de terno e o Resto

 RESTOS de seres, eles escolhem prazeres por certo e errado, suas vidas são vísceras estiradas em uma engrenagem chiaroscura construída de louvor. A argamassa é o pagamento do dízimo. Os homens de terno contemplam essa boiada de restos e enquanto observam, eles urram entre vertigens imaginárias, conjuram termos guturais, dialetos de tempos perdidos e esquecidos por todos nós.

 

A terra, céu e inferno tornam-se um, os homens de terno atingem o nirvana, o poder máximo; expulsam a espécie viscosa de sangue negro do possuído moribundo.

O sangue transforma-se em chuva torrencial, amaldiçoa a todos do templo sagrado, “aproximai-vos infiéis, limpai-vos seus sangues entupidos de miasma.” Logo após o manifesto, os justos caem por terra: lágrimas flutuam em seus campos, enxurradas de loucos, legiões, diabos da macumba secretamente dançam em todos os templos mentais, a massa ajoelha perante os homens de terno.

 

Lembro, contudo, de um jovem em pé, um rapaz franzino, negro e careca, parado diante da aglomeração de intestinos cagados a sua frente. Os seus olhos estavam semicerrados, os lábios fechados e secos, a sua expressão era rígida. O jovem era o instrumento do medo, derivado dos gritos dos homens de terno, uma rocha inválida. Elevei-me ao olhar do jovem, adentrei-me em suas pupilas e fiz da retina meu lar. Observei a verdade crua, gélido como um iceberg tornou-me, entrementes, fisicamente abalado e mentalmente perturbado fiquei. Hoje, deitado em minha cama, sem mexer um músculo ou osso sequer, ainda vejo os restos dos seres, aqueles que determinam prazeres, entupidos por um miasma imaginário. Acima deles, os homens de terno, todos sendo expostos da forma como nasceram à casta, suas aparências reais e grotescas fizeram o sinistro adentrar em minha carne, sugaram o sangue até emergir em minha alma, para assim residir e nunca mais sair. Abençoai-vos sejam aqueles que vêem a verdade, meus irmãos.

Amen.