Selado

 Seus segredos estão enterrados

em minha pele alva, aguardo

ser purificada do nosso pecado,

neste exílio amargurado.

 

Minha inocência é sangue, vazou

das minhas pernas longas, você

reza, chora, faz drama, foge com

a cruz e implora por perdão.

 

Deus amado há de lhe banir,

padre amaldiçoado, arrancou

meu selo sagrado, fugiu com

a lúxuria, largou-me com a fúria,

sem reza nem diabo.

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os homens de terno e o Resto

 RESTOS de seres, eles escolhem prazeres por certo e errado, suas vidas são vísceras estiradas em uma engrenagem chiaroscura construída de louvor. A argamassa é o pagamento do dízimo. Os homens de terno contemplam essa boiada de restos e enquanto observam, eles urram entre vertigens imaginárias, conjuram termos guturais, dialetos de tempos perdidos e esquecidos por todos nós.

 

A terra, céu e inferno tornam-se um, os homens de terno atingem o nirvana, o poder máximo; expulsam a espécie viscosa de sangue negro do possuído moribundo.

O sangue transforma-se em chuva torrencial, amaldiçoa a todos do templo sagrado, “aproximai-vos infiéis, limpai-vos seus sangues entupidos de miasma.” Logo após o manifesto, os justos caem por terra: lágrimas flutuam em seus campos, enxurradas de loucos, legiões, diabos da macumba secretamente dançam em todos os templos mentais, a massa ajoelha perante os homens de terno.

 

Lembro, contudo, de um jovem em pé, um rapaz franzino, negro e careca, parado diante da aglomeração de intestinos cagados a sua frente. Os seus olhos estavam semicerrados, os lábios fechados e secos, a sua expressão era rígida. O jovem era o instrumento do medo, derivado dos gritos dos homens de terno, uma rocha inválida. Elevei-me ao olhar do jovem, adentrei-me em suas pupilas e fiz da retina meu lar. Observei a verdade crua, gélido como um iceberg tornou-me, entrementes, fisicamente abalado e mentalmente perturbado fiquei. Hoje, deitado em minha cama, sem mexer um músculo ou osso sequer, ainda vejo os restos dos seres, aqueles que determinam prazeres, entupidos por um miasma imaginário. Acima deles, os homens de terno, todos sendo expostos da forma como nasceram à casta, suas aparências reais e grotescas fizeram o sinistro adentrar em minha carne, sugaram o sangue até emergir em minha alma, para assim residir e nunca mais sair. Abençoai-vos sejam aqueles que vêem a verdade, meus irmãos.

Amen.

A Irmã de EROS (Lolita de Ray-Ban)

Dedico para as mulheres de esquina.

RESPIRA como se não habitasse o universo, sorri com certo abuso, indiferente aos ébrios de esquina. Rainha, mulher, santa, vadia. Uma erupção momentânea, cravada na cabeça rósea de todos os alfas, a atingir os ômegas, atingindo o prepúcio e o fim. Apocalipse 1:8 foi feito para ela. Deusa da ruína, segura de si, uma confusão abraçada em todas as formas e cheiros, imponente a todos que a cercam.

 

Descobri, enquanto observava os seus óculos Ray-ban antigos, que ela é a filha do Caos, irmã de Eros. Ela unifica os sexos em nome do seu corpo, explora os sentidos de qualquer coisa viva que a observa. Os seios pontudos, bicos enormes, a filha do nada e de tudo, habita o banco de trás do carro, ao meu lado. Seguimos pela Conselheiro Aguiar, iluminados pelas luzes da noite do Recife. Meu colega dirige, afirma que eu devo ir logo, ouso olhá-la, cabeça levantada, o sorriso que esnoba o cosmo, joelhos fechados, exibindo os pelos abundantes do seu sexo angular.

 

Ela olha para mim, o Ray-ban a me encarar, enquanto torno-me rígido.

 

“Vai. Ela custa caro.” O motorista diz.

 

A cavalgada estremece o meu pensamento, ela arranca o Ray-ban, cabelo preto e longo escorre em sua face, os olhos castanhos me atingem como vermes no intestino grosso, eles entram em meus neurônios e ascendem em minha glande. A irmã do caos, a dama que estremeceu a base divina, transfigurando o amor como uma alquimista, exibe um sorriso incógnito, criado por Loki, desenhado por Sade e finalizado por Anais Nin.

 

A perfeição fica por conta de Michelangelo.

 

Ela pede para colocar uma música, o ato do afogar o ganso é um reprocho, deve ser feito com som ambiente (não existem camisinhas, afinal, o ato de procriação foi extinto) o cd é introduzido, The Strokes toca Last Nite, a caída abre as pernas, exibe aquilo que destruiu Deuses, desconfigurou o nosso cotidiano e mudou os sentimentos do ser humano. Pelos escuros, uma mata rasgada, assim como a voz do Casablancas, gutural ao nível sexual, abrindo aos poucos, enquanto o solo é enfiado goela a baixo. Meu pensamento segue as Glândulas de Bartholin, secretando o muco lubrificante, enquanto meu sexo e o dela copulam em uníssono. Ela exibe a língua, um pequeno piercing, desço para os seios novamente, minha mão os fechava de tão pequenos eram, entretanto, tão firmes!

Orifício genital, canal vaginal, eu viajo sem freio, suando a bicas, ao som do Nine Inch Nails, eu a viro, o rabo branco ilumina a face do meu universo, o tecido epitelial exibe-se, enfio até o útero, as bolas entram com tudo, enquanto ergo a cintura dela. A música diz “You let me violate you, you let me desecrate you, you let me penetrate you, you let me complicate you…”

 

Ela geme. Som e carro paralisam. Desgaste temporal. A hora fica doente. Os compromissos deixam de existir. Cronos tomba. A boca dela aberta, os dentes brancos e simétricos sendo exibidos em câmera-lenta. Os segundos são faíscas, persigo o som da voz do amor, em meus ouvidos, a ninfa cantarola feitiços, enquanto jorro o suplício.

 

O suor torna-se um.

 

O hímen é o meu brinde, o planeta está de ponta cabeça. O Ray-ban retorna a seu rosto cândido. Eros concretizou o seu plano, construiu a irmã que habita no sonho de Deuses e homens, assumiu o seu posto de tirano. O motorista entrega o cd e pagamento a ela, enquanto os seus lábios encostam-se aos meus. A porta se abre, seu corpo desnudo é substituído pelo vestido florido e um tênis all star, o fone de ouvido em seu lugar, a mão a acenar adeus, a saudade amargando em meu peito. Até a próxima vez, eu digo, mesmo sabendo que ela não há de ocorrer. A Deusa nunca repete o seu alvo. Ela desaparece em meio a multidão que ela comanda e encanta.

 

A Deusa perfeita, a fortuna de toda uma vida que se esvai. A Puta feliz e rica.

O tempo ainda paralisado, eu espreito o seu último rebolado, desejando que este breve momento fique em minha mente para todo o sempre. Até o fim da minha vida na humanidade.

Queroká

Algo me diz, o perigo há de vir
duplica percepções, pombas giras
citam Zaratustra em vão, xogum do léu
semelhante a morte, mofa o nosso pão.

 

Além da tempestade, uniformes prisões
algemam Morfeu e Aquiles, os homúnculos vindouros
de Calígula, cospem tempestades e trovões
ao som da harpa de Sião.

 

Queroká, rei dos desgostos e das sete marés do caos,
abraça-te as górgonas, prenda-se ao globo caído,
jejuando perante milhões de décadas,
gozo de espasmos, báratro em forma de urro,
escarra o seu manifesto, feto sem reto, vida sem rumo.

 

Motim sem coerência, Queroká, o rei da desavença,
entre em nossas noites, abra os braços disformes, erga
a sua bandeira negra e faça da terra,
infinitude do seu mundo.

A Fabricação de um Herdeiro para o Novo Mundo

RUGOSA carne humana, feita de odor e paraíso. A partir dele o novo filho do Homem há de provir. O filho de Deus do Antigo Mundo disse que a luxúria do vinho assemelha-se com tal carne, tamanha a tentação e beleza. Maria arrancou as vestes, a luz mosaica cegou a todos nós, tombamos entre a dupla santificada, reflexões e feitiçarias em forma de gozo nos atingem. O filho de Deus do Antigo Mundo ergue a ideologia, esfria o coração das vidas ao redor, éden cai perante nós, meros expectadores de tamanha sedução. O anêmico caldo do filho despreza a gravidade, Maria os apara com os lábios exóticos, seus seios acendem, faróis dos tempos modernos, – bicos róseos – ela ergue os enormes e fartos pedaços de pecado, nós só podemos observar, afinal, o ato da fala deixa de existir.

 

O silêncio é o nosso orgasmo.

 

O único som restante é o da libertinagem, Marquês de Sade é quem sabe, o tempo necessário para o falo subir até o ápice. Maria desnuda exibe depilação a Brasileira, os lábios enormes, citando a lua e o sol, seduzem homem e mulher, amamenta os nossos olhares com taras rodeadas de pecados. (Fertilizantes mentais servem de inspiração para o sexo individual.) Arranco a roupa, os outros ao meu redor fazem o mesmo. Maria aprova, encaro-a por um instante, endurecendo a minha hombridade. Vejo-a por completo: É branca, modelada por Deuses esquecidos, Seres estes que largaram a terra ao vácuo dos bastardos, filhos de Kafka e demônios feitos de vadias de esquina.

 

O novo mundo precisa de um herdeiro, Lovecraft, Rimbaud e Borges estão para aprovar, a cria do Frankenstein que está para ser feito. O filho do Deus Antigo aproxima-se de sua mãe, o leito santificado respinga, enquanto a Maria desnuda o puxa com rigor, falo encontra lábio, os nossos olhares se perdem na penetração exaustiva e infindável, um big-bang espiritual, um orgasmo anormal, o branco toma conta de toda a matéria estéril, até que devoram as nossas almas de forma banal. O niilismo introduzido, a orgia e o rebuliço, homenageiam o futuro filho. O algoz branco se encontra com o útero fecundado, o gemido torna-se um e entre as nossas rezas, preces e lágrimas, observamos o nascimento do nosso sobrinho. O filho do Novo Mundo. O líder religioso de uma terra sem nada. O feto de uma cadeia subversiva, derivada de loucos e imundos. A nossa imagem e semelhança, um espelho em forma de carne e sangue.

 

Um caído em meio aos descendentes do remate.